Alucinações do Passado nas origens de Silent Hill

Silent Hill completou 20 anos de lançamento em 31 de janeiro e, nesse período, deu origem a mais de 10 jogos, entre sequências e spin-offs, além de dois filmes e uma série de HQs. Hoje é uma das mais reconhecidas franquias de jogos de terror. Mas Silent Hill teria sido bem diferente, e provavelmente não teria tanto sucesso, se não fosse um filme de terror cult de 1990, Alucinações do Passado.


O primeiro Silent Hill começou seu desenvolvimento logo após o lançamento de Resident Evil e é considerado uma tentativa da sua desenvolvedora, a Konami, de capturar o mesmo sucesso de RE. Para elaborar o jogo, foi formado um novo grupo unindo funcionários que supostamente tiveram problemas em outros projetos e seriam demitidos, o Team Silent.

Para atingir tal objetivo, os membros do grupo foram instruídos a criar um jogo com uma atmosfera de terror hollywoodiana, similar àquela de RE. No decorrer do desenvolvimento, o time começou a ter problemas, de acordo com o compositor Akira Yamaoka, e não sabiam mais para onde ir com o projeto. Com a Konami perdendo fé na iniciativa, Team Silent resolveu mudar a direção do jogo para o terror psicológico com a atmosfera melancólica e imagens grotescas pelos quais a franquia é conhecida hoje.

O primeiro jogo, assim como o resto da franquia, foi baseado em várias referências da cultura ocidental, de Alice no País das Maravilhas e o Mágico de Oz à Kabbalah. Mas a referência mais citada na franquia é, sem dúvidas, Alucinações do Passado. O filme segue Jacob Singer, um veterano do Vietnam, enquanto ele tenta desenterrar a verdade sobre suas últimas horas na guerra, em meio a conspirações do exército, alucinações e o luto pelo seu filho morto, Gabe, em um acidente.


A história de Jacob não é contada de modo linear, e sim pelo entrelaçamento de 3 fios narrativos diferentes: as lembranças dele antes da guerra, o seu último dia no Vietnam, e o pós-guerra, que pode ser considerado o fio principal. Cada parte tem uma atmosfera distinta da outra, refletindo o estado emocional do personagem no momento. A edição do filme, junto com os momentos de alucinação, permite várias interpretações do que é real.

Os designs das criaturas que aparecem durante os momentos de alucinação e os efeitos especiais usados para criá-las foram inovadores para época. E influenciaram vários outros filmes e jogos, além da franquia Silent Hill. Embora a imagética do filme seja claramente visível no jogo, com alguns pôsteres e outros elementos visuais idênticos entre as duas mídias, foi realmente o modo como Alucinações do Passado lida com as diferentes linhas do tempo, suas atmosferas e a incerteza sobre o que é real ou não que mais impactou o desenvolvimento do game.

Tanto os finais do jogo quanto o do filme recontextualizam o que veio antes e, por isso, para fazer uma comparação mais profunda, precisarei dar spoilers para um dos finais do jogo e para o final do filme. Pelos mesmos motivos, se você se incomoda com isso, pule o trecho a seguir, pois ele pode mudar a sua experiência com as mídias. Você foi avisado!


Silent Hill tem 5 finais possíveis, 4 deles são obtidos caso o jogador cumpra certos objetivos extras dentro do jogo, com o quinto sendo um final cômico que pode ser obtido apenas após o jogo ter sido completado pelo menos uma vez. Desses, vou focar no “pior” final possível, aquele que requer apenas que o jogador complete a história.

Após Henry Mason, o personagem jogador, passar todo o jogo procurando por sua filha Cheryl — sequestrada pelo culto da cidade para dar à luz para um deus —, descobre que a menina na verdade é parte de uma médium que originalmente seria a responsável por dar vida ao deus. As duas se reúnem e se tornam o chefe final do jogo, Incubator. Após a luta, a voz de sua filha agradece e se despede, e depois de um momento de desespero, vemos Henry, morto no acidente de carro que iniciara o jogo.


Do mesmo modo, em Alucinações do Passado, conforme o filme chega à sua conclusão, há cada vez mais indicações de que na verdade Jacob nunca saiu do Vietnam, tendo morrido em serviço. Todo o enredo no “presente” seria uma alucinação de um cérebro morrendo, ou anjos e demônios tentando fazer com que ele se desligasse de sua vida terrena para poder ascender ao céu — ou ambos.

A última cena nessa linha do tempo é Jacob encontrando seu filho morto, Gabe, na escada de sua antiga casa e subindo com ele em direção a um segundo andar iluminado. As referências bíblicas a Jacó, Gabriel e à Escada (o título original do longa, vale ressaltar, é Jacob’s Ladder — A escada de Jacó, em tradução literal) são suficientes para inferir a cena final: logo em seguida, Jacob chega ao hospital de campanha e é declarado morto por um médico que diz que ele parece em paz.

Embora o final do jogo descrito aqui não seja o canônico (ou seja, o que é levado em conta para o resto da franquia), quando comparado ao do filme, é possível ver claramente a influência que esse teve sobre o jogo. Ao atingir esse final, até o enredo do jogo é semelhante. Um pai que, ao morrer, alucina uma vida de pesadelos como forma de lidar com sua própria morte.

Do ponto de vista do jogo, faz sentido que esse seja o “pior” final e que não seja canônico. Enquanto em um filme, o clichê de “era tudo um sonho” ou “ele estava morto desde o início” possa ser irritante e cansativo quando mal-usado, é capaz de produzir ótimas histórias, como esse caso e o d’O Iluminado. Entretanto, a mesma estratégia em um jogo não tem tanto efeito, já que depois de horas investidas naquele personagem, descobrir que todas as suas ações não causaram nenhum impacto é muito mais frustrante do que qualquer coisa.


Com o cancelamento de Silent Hills, o próximo jogo da série, que seria feito pela colaboração do criador de Metal Gear, Hideo Kojima, e o diretor Guillermo del Toro, bem como os problemas que a Konami está passando, apontam um futuro incerto para franquia. Mas há uma boa notícia para aqueles que buscam um terror psicológico: um remake de Alucinações do Passado está em pós-produção. O novo filme tinha como data de lançamento 1º de fevereiro, mas foi adiado para uma data incerta, porém, a ideia é que ele saia ainda em 2019.

Particularmente, não acho que vá causar tanto impacto quanto o original, mas estou ansioso para ver o que o novo filme tem a mostrar. E enquanto não há previsão de um novo Silent Hill, sempre há os antigos para se aproveitar.
Alucinações do Passado nas origens de Silent Hill Alucinações do Passado nas origens de Silent Hill Reviewed by Unknown on fevereiro 16, 2019 Rating: 5

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