Sic mundus creatus est - a complexa filosofia de Dark

Dark é uma série original alemã produzida e distribuída pela Netflix. Estreou em dezembro de 2017, tem 84% de aprovação no Rotten Tomatoes, criada por Baran bo Odar e Jantje Friese, entrou no hall das séries mais complexas e bem comentadas da Netflix, sendo uma história de terror e ficção científica.

Para Einstein, o tempo é um lugar, parado, e nós somos quem andamos dentro dele. Em 1905, Einstein disse que a noção de passado, presente e futuro são apenas ilusões e que tudo acontece ao mesmo tempo. Baseado nisso, Dark nos apresenta o tempo cíclico. Diferente do que conhecemos por passagem do tempo, em Winden, cidade onde Dark é ambientada, o passado influencia o futuro e o futuro também influencia o passado, estamos presos em um ciclo onde nossas ações é que mantém o ciclo, mesmo que tentemos quebrá-lo, o ato de tentar destruir o ciclo, é o que o reinicia. Confuso?


A viagem no tempo é um tema recorrente na ficção cientifica desde 1951 com a antologia “Fronteiras Far” de August Derleth, mas há registros na mitologia hindu de histórias sobre viagem no tempo datadas em 700 aC. Temos três tipos viagens no tempo no sci-fi
  • Linha contínua (tempo cíclico)
Como em Dark, “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban” (Alfonso Cuarón, 2004) e em “A Chegada” (Denis Villeneuve, 2016), onde o futuro também influência o passado e a vida é um looping infinito. Se você voltar no passado e matar seu avô antes do seu pai nascer, você se torna uma sobra do paradoxo temporal, ou descobre que a pessoa que foi assassinada não foi seu avô, e esse evento permite que sua avó conheça o verdadeiro pai dos seus filhos, ou seja, você já havia voltado no tempo e já teria feito com que aquilo tudo acontecesse pra que seu pai pudesse ter nascido, mesmo que não soubesse. Aquele passado já aconteceu e tudo em diante foi consequência disso, a viagem no tempo, nesse caso, sempre aconteceu.
  • Linha alternativa (linha temporal)
Como em “Primer” (Shane Carruth, 2004), onde se criam linhas temporais. Se você voltar no tempo e matar seu avô antes do seu pai nascer, você deixa de existir apenas naquela linha temporal, mas uma outra é criada, que é onde você pertence e as dimensões temporais passam a coexistir. Tudo que você faz no passado é real e tem suas consequências, mas a cada contato com o passado, cria uma nova linha temporal.
  • Linha semi-contínua (Paradoxo da predestinação)
Como em “Efeito Borboleta” (Eric Bress, J. Mackye Gruber, 2004), onde não importa o que você faça o resultado futuro não é alterado. Se você voltar no tempo e tentar matar seu avô antes do nascimento do seu pai, você vai ser impedido de alguma forma ou vai descobrir que seu pai é filho do irmão gêmeo ou você simplesmente não vai ter interesse em fazê-lo porque com citado em Dark “não somos livres nas nossas atitudes porque não somos livres no nosso desejo”.

Em Dark, temos o Paradoxo da Predestinação. Como por exemplo, a lanterna que Jonas adolescente ganha de Jonas adulto, ele não sabe usar, parece ser algo totalmente futurista, e mesmo assim, ele aprende o que já dá a ele uma vantagem em conhecimento em relação a outros de sua mesma época. Mas ainda assim, quem a deu, foi ele mesmo, ele não teria essa vantagem se não fosse por ele mesmo. Como também foi com Mikkel, Jonas não salva Mikkel em 1986 porque ele não quer deixar de existir, e quando decide fazê-lo, é raptado por Noah, e dentro do bunker, ele vai para 2052, onde ele conhece a lanterna avançada demais pra versão passada dele. Tudo é um ciclo, e não só o passado influi no futuro, mas como o futuro também influi no passado. A viagem no tempo é quem causa os acontecimentos, e tentar impedir os acontecimentos é o que faz com que eles aconteçam.

Se você volta no tempo e mata seu avô antes do nascimento do seu pai, quem matou seu avô? Mesmo que hajam outras linhas do tempo, o breve encontro com seu avô, com seu pai, ou até com você mesmo, faz alguma interferência ou é necessário que você queira alterar? Ou esse encontro sempre aconteceu e você vive sob as causas? Como quando Egon em 1953 conhece Ulrich adulto e o identifica como um assassino de crianças. Ulrich aprecia a ironia do momento e recita “my only aim is to take many lives, the more the better I feel” (meu único desejo é tirar muitas vidas, quanto mais, melhor eu me sinto), musica que ele ouvia na adolescência e que Egon idoso odiava em 1986, mas esse encontro em 1953 que o faz odiar a música, porque ele acabou de prender um homem desconhecido e a música ainda não existe. Ele teme que Ulrich adolescente se torne aquele assassino já que ele repara nas semelhanças, e ao ouvir a música em 1986, ele se lembra. Então esse breve encontro mudou o curso de tudo? Se não fosse por essa música, Egon não teria acreditado tão fielmente em Hanna, não teria prendido Ulrich em 1986, não incitaria o casamento de Ulrich e Katharina, eles não teriam tido Mikkel que desapareceu em 2019, Ulrich não o procuraria, não teria entrado nos túneis, não teria saído em 1953, não teria recitado a música para Egon de 1953. Um breve encontro gerou tudo isso, mas quem determina todo esse propósito? Realmente há um Deus que faz com que todos os acontecimentos sigam seu curso, ou é apenas a causalidade?


A causalidade vem junto com o “efeito borboleta”, mas e se pudéssemos desdobrar a causalidade? Fazer um Orobus, impedindo eventos sucessivos, mas criando a cobra que morde o próprio rabo? Se fosse possível que viajássemos na velocidade da luz, fossemos tão rápidos quanto à causalidade, qual seria o papel de Deus, qual seria sua função? Noah pergunta a Mikkel se ele acredita em Deus. Ele diz que não, que tudo veio do Big Bang. Então Noah pergunta o que havia antes do Big Bang. O Big Bang pode ser interpretado como o ponto 0, quando tudo se iniciou, então um dia houve um momento onde tudo era novo, e o ciclo veio a partir disso? Assim como no filme “O Predestinado”, que nos perguntamos de onde veio a primeira Jane. Se a vida é um ciclo, se o tempo é uma cobra que morde o próprio rabo, onde é que deixamos de sermos novos? E se deixamos, por que não queremos que haja um tempo novo que quebre todo o ciclo? Se não somos livres nas nossas atitudes, porque não somos livres nos nossos desejos, todos nós, com viagem no tempo ou não, somos Jonas que iniciamos viagens no tempo achando que estamos a destruindo porque simplesmente o nosso desejo de fazer diferente, é o que nos faz ficarmos presos no ciclo onde a causalidade foi desdobrada.

O que você sabe? O que você sabe e está errado? O que você sabe que você não sabe comparado ao tamanho do que você sabe que sabe? Qual o tamanho do que você não sabe que não sabe? Dark fala o tempo todo sobre ciclos, e no nono episódio da primeira temporada, tem um momento em que a cena começa em Jonas e termina em Noah. Jonas ainda não sabe quem ele é, e isso faz parte de todas as coisas que ele ainda não sabe. Ele ainda não sabe que tentando impedir os eventos de acontecerem, é justamente o que os fazem acontecer; então ele se unir a Claudia para não ser como Noah, é o que pode, justamente, fazer com o que ele se torne Noah.

A filosofia tenta explicar de várias formas como você chegou ao ponto de ser quem você é. Você não seria quem é hoje, se não fosse pelas suas memórias e experiências. Todas as suas alegrias e frustrações te tornam em quem você é. Assim como a frustração de Hanna por nunca ter tido um relacionamento com Ulrich a torna amarga e manipuladora, a frustração de Jonas por nunca conseguir acabar com os tuneis, o torna um ermitão. Ele é obra de um milagre (ou um paradoxo), assim como dito na Tábua de Esmeralda, que tudo o que está embaixo fica em cima, e tudo que fica em cima vai para baixo gerando assim um milagre, Jonas é esse milagre. Ele é um resultado de quando Mikkel viajou para 1986 e se tornou um homem em 2019, assim como em 2019 ele era o menino que viajou para 1986, Jonas é esse milagre. Ele é um paradoxo e não consegue se conformar, mas assim como é preciso aceitar que ele precisa fazer parte de algo maior, assim como Claudia quando descobre o acidente nuclear em 1986 e Bartosz quando está aprendendo com Noah, a frustração de Jonas é precisar conformar que “assim o mundo foi criado” e que ele apenas faz parte de algo muito maior. Como é possível se conformar em uma realidade em que é necessário o tempo todo se questionar se ela é a realidade? Jonas fala no inicio da primeira temporada sobre uma “falha na Matrix”, assim como a cidade de Winden não existe para registros externos na Alemanha, como saber o que é real em uma cidade onde há 99 anos as pessoas tentam sair dela e não conseguem? Como quando Ines Kanhwald pergunta a Mikkel se ele sonhou que era uma borboleta que sonhou ser uma pessoa, ou se ele era uma pessoa que sonhou ser uma borboleta? Se você viaja para o passado, cresce, envelhece, até o momento em que se vê criança viajando para esse passado, você é um homem do passado que chegou ao futuro ou uma criança do futuro que viveu no passado? Mikkel pertence ao futuro ou ao passado? E qual a diferença? O que difere o que torna bom ou ruim, melhor ou pior estar entre duas realidades? O que te torna são é saber que você não pertence àquele lugar ou não saber que você não pertence?


E nesse reconhecimento, o que gera o amor? O que você é pra uma pessoa é suficiente pra ela te amar ou todo o espectro de quem você é, é relevante? Qual a importância do passado quando se tem o futuro? E quando o futuro passa a ser independente do passado? Qual o limite do que é condenável antes da sua participação na vida daquela pessoa? Ao abrir mão do passado de alguém, está abrindo mão de quem a pessoa é? Como Regina, que tem um marido gentil e dedicado, mas que não sabe que ele mente há anos sua identidade e seu passado. Nesse momento, qual a identidade real de Boris? Ou Aleksander? Quem é real, Mikkel ou Michael?
Nesse momento que começamos a entender o quanto a série fala de uma vida pela outra. Qual a importância de uma vida? O quanto uma vida vale quando comparada à outra? Regina diz que preferia que Ulrich tivesse desaparecido ao invés de Mads, Jonas prefere deixar de existir a ver seu pai sofrer no futuro, Ulrich tenta matar Helge porque ele julga a vida de Mads, Mikkel, Yasin e Erik mais importantes. Quem é mais importante e quem faz essa distinção? Dark ilustra nossas escolhas com dobras no tempo. Se Ulrich nunca tivesse tentado matar Helge, ele nunca teria conhecido Noah e nunca teria auxiliado nos assassinatos e desaparecimentos.
Jonas é o maior paradoxo, a maior falha que as viagens no tempo deixaram. O tempo inteiro ele quer sumir, morrer, mas é impedido pelos eventos que o cerca. Ele é o resultado da triquetra, ele é o milagre da Tábua de Esmeralda, mas também se enxerga como uma maldição. Por fim, ele é a borboleta que sonhou que era um homem, ou um homem que sonhou que era a borboleta? Ou ele é o bater de asas da borboleta?


Dark é uma série de terror, ficção cientifica que nos traz ciência, alquimia, momentos de terror, drama e suspense muito bem pontuados, mas principalmente, a série traz muita filosofia. A série usa a viagem no tempo para questionar os personagens e a nós quem somos, e o quão pequenos somos. A nossa ideia de tempo, controle, são totalmente equivocadas, e estamos em constante busca do que é, e do que pode ser real. Eu sou um homem que sonhou que era uma borboleta? Ou uma borboleta que sonhou que era um homem? Ou sou um bater de asas da borboleta?
Sic mundus creatus est - a complexa filosofia de Dark Sic mundus creatus est - a complexa filosofia de Dark Reviewed by Unknown on março 21, 2018 Rating: 5

5 comentários

  1. Amei seu texto! Muito bem explicativo!

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  2. Imagina quando o autor do blog descobrir que a mãe da Charlotte é a filha dela! Kkkkkk deve surtar por saber q existe um paradoxo maior a o do Jonas

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  3. Faz um artigo atualizado da segunda temporada. Abs!!!

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  4. Não tinha pensado nesse coisa do Ulrich ter citado "my only sim..." E ter influenciado ele ser preso em 86 e ter feito ele casar cm Katharina e ter o mikkel pra viajar no tempo, realmente bem prnsado

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